quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Let It Be - The Bealtes (1970)


"The Beatles will just go on and on...
the Beatles, I think, exist without us."
--George Harrison





Lado A
1. "Two of Us" (Lennon/McCartney) - 3:37
2. "Dig a Pony" (Lennon/McCartney) - 2:35
3. "Across The Universe" (Lennon/McCartney) - 3:48
4. "I Me Mine" (Harrison) - 2:26
5. "Dig It" (Lennon/McCartney/Harrison/Starkey) - 0:50
6. Let It Be - (Lennon/McCartney) - 4:03
7. "Maggie Mae" - (Lennon/McCartney/Harrison/Starkey) - 0:40

Lado B
8. "I've Got a Feeling" (Lennon/McCartney) - 3:38
9. "One After 909" (Lennon/McCartney) - 2:54
10. "The Long And Winding Road" (Lennon/McCartney) - 3:38
11. "For You Blue" (Harrison) - 2:32
12. "Get Back" (Lennon McCartney) - 3:09


Último álbum do quarteto fantástico, Let It Be é uma compilação de canções gravadas sem necessariamente haver um propósito de ligação entre elas, como os Beatles faziam em seus álbuns. Pelo contrário, ela evidencia a separação que agora estava concreta. O que já se pode ver na capa do álbum, onde aparecem 4 fotos separadas de cada um dos integrantes, individualmente.
Let It Be, que foi lançado posteriormente ao término da banda, é formado por faixas que foram gravadas após o White Álbum, ou que haviam sido deixadas de lado até então. Os Beatles, que iniciaram sua carreira com "silly love songs", tem em Let It Be o término de seu ciclo. Não coloque um olho dramático na situação. Por que todo término é ruim? O término faz parte, assim como o começo. É o ciclo. Este álbum é o fechamento deste ciclo, suas últimas faces, como os ultimos dias do ano. Repleto de clássicos, se torna algo muito audível numa viajem de carro por exemplo. Onde não exista a ansiedade social de estar tocando algo que todos conheçam e que propicie a interação e a comunicação. Let It Be é mais propenso ao silêncio, a introspecção, porém não de uma maneira ruim, que leve ao sofrimento, e sim com um sentimento de nostalgia, para ser compartilhado em comunhão com outros que também apreciem canções bonitas, e momentos bonitos. Nostalgia também o sentimento que passam as músicas, devido a maior parte delas terem sido gravadas quando tudo já estava terminado, porém eles ainda estavam juntos, unidos pelo passado em comum. Este álbum é para ser escutado num ambiente que não necessite necessariamente da comunicação verbal incessante. Onde o silêncio possa prevalecer entre as bocas sem se tornar inconveniente.
Ou para se escutar sozinho. Nada melhor que a nossa própria companhia.

Começando com a romântica e simpática Two Of Us, se torna marcante mesmo na faixa 6, quando Paul e seu piano entoam os lindos versos de Let It Be. Algo tão sublime, de tão insustentável leveza, que se traduzido para português se torna até ridiculo, não havendo tradução compatível com o seu sentido. Deixe ser, deixe estar, deixe acontecer, deixe fluir, calma, paciência, enfim, sentimentos reconfortantes. Let It Be é uma música para um coração que dói, de tristeza por algum motivo irredutível. É para demonstrar para aqueles que sofrem, que tenham calma, que tudo vai se resolver, e que tudo sempre acaba bem, é só deixar acontecer.
Um dos versos mais lindos de todos os tempos, esta nesta, que é para mim uma das músicas mais lindas de todos os tempos:
"And when the broken hearted people living in this world agree, there will be an anwer, let it be."

Outra música essencial para a vida é Across The Universe.
'Nothing is gonna change my world'
Que sonhador nunca entoou esses versos, nem que tenham sido com outras palavras? Uma das músicas mais lindas de toda a carreira musical deles, com certeza. Totalmente espiritual, ela foi gravada originalmente em 1968 [sua versão original se encontra no Past Masters Vol. 2, remasterização lançada em 2009], e traz Lennon em uma de suas melhores facetas como poeta. Incrível !

E para finalizar o álbum, a contagiante Get Back. Boatos dizem que Paul escreveu esta música como uma indireta para Yoko Ono. Ela, que na época desta gravação (final de 1969) frequentava assíduamente os ensaios e o ambiente dos Beatles, encarava Get Back como uma provocação de Paul, contra ela e John. "Get back, get back to where you once belong", é o que Paul grita nesta canção. Com um riff totalmente contagiante, este também é um rock'n'roll nu e cru, de qualidade, trazendo agora Paul em uma de suas melhores composições musicais.

Este álbum ainda trás outras incríveis canções, como I've Got a Feeling, que tem em seu interior esses lindos versos:
"Everybody got a hard year,
Everybody had a good time,
everybody had a wet dream,
everybody saw the sunshine."

Let It Be ainda é muito mais que isso! E quem nunca escutou baixe o álbum completo, e escute no momento apropriado. Vale a pena!

Deixo vocês com um incrível momento não só da minha vida, mas como de mais de 60 mil pessoas, que presenciaram o lindo momento de Paul cantando Let It Be para nós. No show, no dia 21 de novembro, em São Paulo, Let It Be veio logo depois do grande extase de A Day In Life, que no auge de sua orquestra passou diretamente para Give Peace a Chance. A platéia então, em transe, num estado de ecxstase agudo, gritou veementemente Give Peace a Chance por longos e intermináveis minutos, enquanto beixigas brancas que haviam sido dadas na entrada estavam sendo soltas no ar. A energia da platéia emocionou Paul, que diz, "Thank you, the whole world is seeing that." (Muito obrigado por isso, o mundo inteiro está nos vendo).
Depois desse ecxtase, com a platéia ainda cantando Give Peace a Chance (reparem no início do vídeo), Paul começa a tocar no piano os primeiros acordes de Let It Be. Uma coisa linda!
Dá para ver que era um momento épico para todos. Para o público, para o nosso querido Paul, e para a banda. Paul depois disse que este primeiro show em São Paulo foi um dos momentos mais incríveis da sua vida. Uma energia incrível mesmo, que me faz acreditar cada vez mais na Revolução do Amor. Da qual os Beatles são a trilha sonora.




Obrigada!

Sofia

:)




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Déjà Vu - Crosby, Stills, Nash & Young (1970)


Lado A
1. "Carry On" (Stills) - 4:26
2. "Teach Your Children" (Nash) - 2:53
3. "Almoust Cut My Hair" (Crosby) - 4:31
4. "Helpless" (Young) - 3:33
5. "Woodstock" - (Joni Mitchell) - 3:54

Lado B
1. "Déjà Vu" (Crosby) - 4:12
2. "Our House" (Nash) - 2:59
3. "4 + 20" (Stills) - 2:04
4. "Country Girl" (Young) - 5:11
5. "Everybody I Love You" (Stills, Young) - 2:21


Depois de um longo tempo na inatividade, hoje reinauguro nosso querido blog. Devido às férias, a mudança de ano, e tudo mais, acabamos priorizando outras coisas ao invés do blog. Mas agora tudo está lentamente voltando ao normal, e com isto nosso blog também volta a ativa.

Hoje vou falar um pouco sobre um lindo álbum, talvez não tão reconhecido como deveria ser, mas de uma qualidade indiscutível.
Déjà Vu é o primeiro trabalho em conjunto desses 4 artistas. O conjunto CSN (Crosby, Stills and Nash) já existia previamente, e tinha acabado de lançar seu primeiro álbum, com nome homônimo a banda, e obteve uma boa projeção no cenário do rock americano. Para seu próximo álbum recrutaram então o misterioso canadense Neil Young, que com sua ácida voz, vinha reverberando cada vez mais nos EUA do final dos anos 60. David Crosby, ex integrante do grupo The Byrds, então namorado da expoente cantora Joni Mitchell; e Stephen Stills, ex guitarrista do Buffalo Springfield, foram os primeiros a se juntarem para tocar. Logo em seguida veio Graham Nash, ex integrante do The Hollies. Sentindo então a necessidade de um quarto integrante, chamaram o ex companheiro de Buffalo Springfield de Stephen Stills, o canadense Neil Young, ainda a tempo do grande evento de rock Woodstock, que foi a primeira apresentação do grupo.

O álbum é uma deliciosa mistura de folky music, com misturas de rock'n'roll e country music, e é marcado pelos lindos arranjos de voz dos 4 integrantes. Se destaca ainda por letras muito bem escritas, algumas com críticas contundentes, como em "Teach Your Children", que com um ritmo country com levadas folk, tem uma letra linda, sobre a relação pai e filho. Como um pai deve entender um filho, e um filho entender um pai.

"And you
Of tender years
Can't know the fears
That your elders grew by
And so please help
Them with your youth
They seek the truth
Before they can die"

O álbum conta com outras canções incríveis, como "Woodstock", canção escrita por Joni Mitchell, que fala sobre o famoso festival de 1969. Outra relevante canção é a que dá o nome ao álbum; Déjà Vu, fala justamente sobre um deja vu, o que seria essa estranha sensação de já ter estado naquela situação anteriormente. "And I feel like I've been here before", eles dizem. Com uma melodia envolvente, acompanhada por uma linda gaita de boca, ela quase te induz a um déjà vu.

Outra canção que particularmente me toca é "Helpless", uma linda composição de Neil Young, que toca seu violão e sua gaita de boca, com muita emoção. Isso tudo, misturado com a linda letra e a voz ácida de Young, dão um ar muito especial para esta faixa. Uma frase que se destaca para mim é: "In my mind I still need a place to go".

Mas o ponto alto do disco, pelo menos para a minha singela pessoa, é a canção "4 + 20". Dela, que foi um marco para época, que surgiu o famoso horário, das 4:20, hora sagrada no mundo inteiro, para os que curtem uma erva. Porém, esta canção é muito mais que isto. Seu arranjo e sua melodia tendem ao misticismo, sua letra tende a solidão, a introspecção. "A diferent kind of poverty, now upsets my soul.", é uma dessas frases de efeito.
"4 + 20" é composta simplesmente de um violão de aço e de uma voz, os dois elementos executados lindamente por Stephen Stills. Com apenas 2:04 de duração, ela diz a que veio. Uma facada.
Uma particularidade desta canção, é que, depois de se apresentarem no festival de Woodstock, o grupo pegou um helicóptero e se dirigiu para um programa de televisão, onde Stephen Stills toca justamente esta música.
Deixo a vocês, para degustação, o vídeo deste acontecimento.





Obrigada, e fiquem atentos que vamos voltar a ativa novamente!

Sofia

:)





terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Felixbravo - Camafeu (2010)



1. Maxichoro
2. Bossa 'N' Bossa
3. Brincante
4. Para Acordar Corações Tupiniquins
5. Tertúlia
6. Arteiro
7. Marzipan
8. Sossegura
9. Mala de Sonhos
10. Infância
11. Encantada
12. Caramanchão


'Quem comparar, há de se lascar, com esse novo som. Canção que entoa e traz, a leve menção, do que o jovem quer dizer, e digo mais!' Versos de Maxichoro, primeira faixa de Camafeu, já dizem logo de cara a que vieram esses dois rapazes, Bernardo Bravo, e João Felix.
Esse novo som, como a própria dupla residente em Curitiba afirma, é algo novo. Algo que não pode ser comparado, pois a comparação iguala duas coisas. E este é um som sem igual. Também não pode ser definido. Pois definir é limitar. E este novo som é ilimitado. Profundo, num tempo onde permeia a superficialidade. Simples, no meio de uma inútil complexidade. Doce, em tempos tão amargos.
Uma flor no meio do lodo. De tamanha qualidade que passa um sentimento nostálgico, parecendo algo que não existe mais.

Fruto de o projeto de dois amigos, que se conheceram no ensino médio, num colégio de Curitiba, Camafeu tem a docura e simplicidade que faltam nos dias de hoje. Maneira que João Felix e Bernardo Bravo acharam de se opor a tudo que está errado, e a tudo que existe. Cansados de ouvirem as mesmas coisas, decidiram criar sua própria coisa. Inspirados pelo cotidiano, pela vida.

Bernardo Bravo, nascido no Rio de Janeiro, se mudou aos 15 anos para a capital paranaense, e foi estudar no colégio Dom Bosco. Chegando lá, teve uma ligação instantânea com João Felix, curitibano de nascença, com também 15 anos na época. Os dois logo se tornaram grandes amigos, e aos poucos foram se descobrindo músicos. Começaram a tocar violão, e a compôr. Em 2007 Bernardo lançou seu primeiro EP com algumas faixas autorais, contando com uma parceria com o amigo João. Parceria esta que se destacou dentre as outras faixas, sinalizando assim aos dois amigos que deveriam seguir em frente nessa parceria. Ainda em 2007 lançaram algumas músicas que fizeram um certo sucesso. Em 2008 receberam uma ilustre nota de meia página publicada na revista Rolling Stone.

João Felix e Bernardo Bravo, juntamente com sua "Tertúlia" (conjunto de amigos), estavam cansados de rodar a noite curitibana, onde começaram a se ver limitados com as opções oferecidas. Depois de gastar um bom dinheiro nas noitadas, um dia eles e seus amigos se reuniram, e ao calcular o tanto que gastavam por mês para se "divertirem", viram que era o suficiente para alugarem uma casa. Surgiu então a Casinha, casa de fundos situada no Ahú, próximo do Museu do Olho, em Curitiba. Este foi um ponto marcante na história da dupla. A Casinha se tornou seu quartel general , onde foram realizados milhares de ensaios, conversas, etc. Para arrecadar dinheiro para pagar o aluguel da Casinha, Felixbravo e sua Tertúlia organizaram festas como a consagrada Fora da Casinha, conhecida festa do meio alternativo curitibano, que na sua última edição reuniu mais de 300 pessoas. Palco de muitos momentos marcantes para a dupla, a Casinha foi fator essencial para a concretização de Camafeu. Alí foram feitas e ensaiadas muitas das músicas deste álbum. Como o próprio Felix disse, "A cidade tem uma energia, o campo tem outra. A Casinha está na cidade, mas tem a energia do campo."
Energia que trouxe esta quietude, essêncial, também segundo Felix, para a manifestação das poesias, rimas e melodias que compõem Camafeu.
Com o slogan de Músicas pra se escutar no silêncio, Camafeu só pode ser inteiramente apreciado quando escutado no silêncio. Num dia chuvoso, ou no campo. Na praia, na estrada. Sozinho, em dupla, amantes e solteiros. Um som para os que tem paz de espírito suficiente para conseguirem canalizar suas energias para apreciar este silencioso álbum.


Musicalmente privilegiado, Camafeu conta com faixas muito diversas entre si, mas que têm em comum a mistura, e a qualidade. Mistura esta que pode ser vista numa faixa onde um violoncelo contracena com uma percussão abrasileirada. Ou então na conversa entre uma cítara e um banjo. Conversas estas onde permeiam o equilibrio e a sincronia. Presente em várias músicas, ainda surge uma flauta docemente tocada por Bernardo, e o violão cativante de Felix. Além de suas vozes, que juntamente com os outros instrumentos, controem um camafeu. Contando com os mais variados instrumentos, Felixbravo chamaram os melhores músicos da cidade para a gravação do álbum. "Já que iamos inovar, então tinhamos que chamar os melhores. Então chamamos os melhores músicos da cidade, cada qual no seu instrumento, para a composição do álbum." afirma Bernardo.

Bernardo Bravo, que compôs a maioria das poesias, musicalizadas majoritariamente por Felix, tem uma sensibilidade muito rara ao escrever suas poesias. Cansado de rimas fáceis, ele escreve de uma maneira singular, única, que, segundo ele, tem inspiração no seu cotidiano. Mas que consegue retratar sentimentos que não são apenas seus, e que tocam o coração de muitas pessoas. As letras são verdadeiras poesias, sem excessão.

Particularmente eu destaco Para Acordar Corações Tupiniquins, que tem como objetivo realmente acordar os corações dos brasileiros, adormecidos e anestesiados, deixando suas vidas de lado, vendo as passar de canto de olho. O ritmo, além da letra, influência numa introspecção, que ao escutar a letra, cantada por Bernardo, te faz realmente pensar.

"[...]
Panos coloridos, tem, tem,
Batuque além mar
Viva a fantasia que nem
Jeito de sonhar
Sonha com a comida vai lá
Vota com a tua mão
Elege essa tua líder e me traz
Um novo sermão

Bole com teu medo tenaz
Arranque esse nó
Faça florescer tua voz
Mesmo que tão só
Rasga a cretinice mordaz
Firme os seus pés
Berre os seus hinos e seus ais
Brilhe de uma vez!"

Bernardo termina quase gritando ao entoar os versos finais desta linda canção, com a esperança de que ela acenda, nem que seja, um coração.

Para momentos mais nostálgicos, recomendo a sublime Infância, composta apenas do violão tocado suavemente por Felix, a voz doce de Bernardo, e uma harpa lindamente tocada por Felipe Ayres. Outra que particularmente eu recomendo é Mala de Sonhos, que contém lindos versos, e uma musicalidade que toca seu coração.

De uma profundidade pouco vista atualmente, Felixbravo tem tudo para realmente acordar corações tupiniquins.
E para quem acha que Curitiba e o Brasil de um modo geral, não produzem música de qualidade, é uma boa hora de mudar de idéia.

Quem quiser pode baixar Camafeu no http://tramavirtual.uol.com.br/felixbravo . Porém, eu aconselho a comprar o CD, que por si só é uma pequena obra de arte. Um origami, dobrado pelos próprios músicos e seus amigos, todo feito de papel reciclado, que contém as letras de todas as músicas, os músicos e os instrumentos que participaram de cada canção, além de conter uma surpresa para os mais pacientes que escutarem o CD até o final. Basta mandar um email para felixbravo@felixbravo.com.br que eles enviam para o Brasil inteiro. Ainda tem um custo barato, de apenas 15 reais. Ou então, para os moradores do Japão, nesta semana Camafeu começou a ser vendido no iTunes do Japão.

Vale a pena conhecer o trabalho destes dois amigos, que se pudessem, como dizem em Infância, 'cantavam até o mundo acabar!'.

Obrigada pela atenção!

Sofia

ps.: este artigo foi escrito com base numa entrevista feita com a dupla Felixbravo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Secos & Molhados - Secos & Molhados (1973)



01. Sangue Latino
02. O Vira
03. O Patrão Nosso de Cada Dia
04. Amor
05. Primavera nos Dentes
06. Assim Assado
07. Mulher Barriguda
08. El Rey
09. Rosa de Hiroshima
10. Prece Cósmica
11. Rondó do Capitão
12. As Andorinhas
13. Fala

Surpreendente. É um adjetivo que reflete bem o que é este álbum.
Surpreendente para sua época. Surpreendentemente diferente.
Surpresa foi a minha reação, ao ouvi-lo pela primeira vez.

Algumas pessoas já tinham me falado para ouvir Secos e Molhados. E eu, no meu preconceito ignorante de resistência à músicas brasileiras, demorei a dar ouvidos à esses maravilhosos conselhos.
Até que um dia, um amigo, ao ser indagado sobre o motivo de ser tão calado, responde com a seguinte frase: "Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto." Eu, achando essa frase linda, pergunto, de quem é sua autoria. E a resposta? Secos e Molhados!
Esse foi o impulso final que me levou a baixar o primeiro álbum deles, este que vos falo.

Lançado em 1973, é o álbum de estréia desta banda um quanto tanto bizarra, liderada por João Ricardo, um cantor e compositor português, que se mudou para o Brasil em 1964, com então 15 anos. Jõao Ricardo é filho de João Aponilário, renomado poeta e jornalista português. Desde pequeno Jõao Ricardo esteve ligado à música, principalmente ao rock. Em 1963 entrou em contato com o grupo que viria a determinar o curso de sua carreira músical, influenciando em muito suas concepções musicais. Advinhem quem? The Beatles, só poderia ser né.
Em 1964 a família se muda para o Brasil, e João Ricardo se depara com a efervecência músical que rondava o país nesta época, e, ao conhecer a Jovem Guarda, movimento roqueiro da época, ele se estimula mais ainda a compôr. Começa primeiramente escrevendo músicas dos Beatles em português, depois aprende a tocar violão e começa a compôr suas próprias músicas.
Em 1970, durante um período de férias em Ubatuba, enquanto comia e bebia com um amigo numa casa de secos e molhados (nome dado à armazens), resolve adotar este nome para sua banda, que por enquanto incluia apenas ele, e ele mesmo. Em 1971 conhece Antonio Carlos, o Pitoco (viola de 10 cordas) e Fred (bongô). Com seu violão de doze e harmonica de boca, completa agora a banda anunciada: Secos e Molhados.
Ao tocarem em um bar em São Paulo, chamado Kurtisso Negro, Jõao Ricardo conhece e a cantora e compositora Luhli, com quem viria a compôr grandes sucessos da banda. João estava a procura de um vocalista, e Luhli lhe apresenta um cantor carioca, que na época ainda morava no Rio de Janeira, chamado Ney de Souza Pereira, futuro Ney Matogrosso.
Em 10 de novembro de 1971 Ney se muda para São Paulo, e na mesma noite já se reunem para gravarem algumas músicas. A interação é intensa e imediata. Imediatamente começam a ensaiar, e um ano depois começaram a se apresentar no bar-restaurante paulista "Casa da Badalação e Tédio", anexo ao Teatro do Meio, de Ruth Escobar, onde atraiam enormes públicos, e consequentemente empresários e gravadoras. Não demorou para surgir o convite para a gravação do primeiro álbum.
E, no dia 23 de Maio de 1973, o grupo, que agora se encontrava com uma formação totalmente diferente da inicial, entra nos estúdios "Prova", em São Paulo, para gravar este álbum que viria a ser um dos grandes clássicos da música brasileira. Em sessões que duravam 6 horas, por 15 dias, em 4 canais, foi concebido Secos e Molhados, álbum com nome homônimo à banda, que vendeu mais de 300 mil cópias em apenas dois meses, atingindo rapidamente um milhão de cópias.
Uma banda de estréia que, já no seu primeiro disco, quebra todos os recordes de vendagens de discos e público, se tornando assim um dos maiores fenômenos da música brasileira.
Em 1974, durante a turnê de lançamento deste álbum que vos falo, eles realizaram um show histórico no Maracanazinho, que até então foi o show com maior público de toda a história do Brasil. 30 mil pessoas assitiram ao show, e, dizem que 90 mil ficaram do lado de fora.


Contexto histórico, político, social, cultural e musical:

Em 1968 a repressão da ditadura atingiu seu auge, com famoso Ato Institucional no. 5, que instituiu a censura no Brasil. Uma de suas passagens autorizava a "suspensão de liberdade de reunião, associação, censura de correspondência, da imprensa, das telecomunicações e diversões públicas." Nesta época, as músicas, para serem lançadas, tinham que passar préviamente por uma autorização do governo. No mundo inteiro explodiam revoltas, e no Brasil surgiu o Tropicalismo, com Gilberto Gil e Caetano Veloso liderando o movimento. Neste mesmo ano juntamente com outros artistas de qualidade, como Os Mutantes, Tom Zé e Gal Costa, eles lançaram o manifesto do movimento, o álbum Tropicalia ou Panis Et Circencis, totalmente revolucionário.
O Tropicalismo, que juntava ritmos tão "incompatíveis" como o rock e o samba, abriu caminho para novas experimentações das bandas que viriam em seguida. Sobre a influência deste movimento em sua obra, Jõao Ricardo disse: "Eles foram extremamente importantes para a experiência do Secos & Molhados. O Tropicalismo foi uma abertura para a gente ser hoje dessa forma [...] Gil, Caetano logo após, tentaram uma conscientização maior da juventude, tentaram acabar com tabus na música e em uma porção de coisas. Hoje o Secos & Molhados é um resultado disso tudo."


Em 1973 a ditadura militar estava no auge de sua violência e repressão, enquanto isso os Secos & Molhados vendiam milhares de discos e atraíam multidões. Pode-se definir este álbum como sendo um grito de liberdade muito forte, numa época de uma lavagem cerebral absurda. As letras das músicas tinham que ser muito mascaradas e bem pensadas, para passarem pelo filtro da ditadura. Letras essas que, na sua maioria, surgiram de poesias musicalizadas por João Ricardo. Poesias essas escritas por ninguém menos que Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, além de João Apolinário, pai de João Ricardo. Composição de Vinicius de Moraes, a melâncolica Rosa de Hiroshima foi um sucesso estrondoso. Varios dos grandes sucessos da banda estão neste álbum.

O álbum, em si:

Uma mistura de tudo, era assim que os Secos e Molhados definiam seu trabalho. Com levadas de rock, passando pelo glam rock (evidente na capa e no comportamento andrógino dos integrantes), chegando no baião, mpb e jazz, e tendo uma forte levada de rock progressivo. Portanto, era uma legitima salada de frutas musical! Porém, o líder do grupo Jõao Ricardo, os denominava como sendo um grupo pop, como afirmou em uma entrevista: "Essa é a nossa linguagem [a do rock]: a reinvenção do pop, porque isso é um processo que vem a partir de algum tempo, do underground, dos beatniks, dos hippies, e então talvez seja uma reinvenção disso, mas ainda dentro de uma infraestrutura progressiva do pop, entende, e dentro do próprio momento absolutamente capitalista que vivemos hoje. Sim, porque nós, de alguma maneira, somos um produto bem acabado, sabe, da sociedade."

Outra particularidade do álbum é sua capa, feita pelo fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues, do jornal carioca Última Hora. Em 2001 a Folha de S.P. elegeu esta capa como a melhor de todos os tempos da música brasileira. Rolam boatos até hoje de que a banda Kiss começou a usar suas máquiagens após verem a capa deste álbum.

Bom, agora que já expusemos uma boa parte do contexto histórico, social e cultural do disco, podemos falar um pouco sobre as músicas em particular.
O ábum contém 13 músicas, na sua maioria não passando de 2 minutos de duração, sendo que a mais longa atinge 4:52 minutos. Em meia hora se escuta o álbum completo.

Sangue Latino é a canção que abre o álbum. Com uma levada delicosa de baixo, fala sobre a condição dos latinos americanos, os 'descaminhos' dos povos desse continente, bem como a sua capacidade de resistir. Composta por João Ricardo, juntamente com Paulinho Mendonça, entoada pela voz marcante de Ney Matogrosso, respousa em uma levada deliciosa de um violão de 12 cordas, acompanhado de um violão solo. É um dos grandes hits do álbum.

"E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo [...]"


Logo após esta delicosa música vêm O Vira, uma canção com temática folclórica, uma levada de baião, lembrando uma cantiga de festa junina, misturada com uma pegada rock'n'roll. Super curiosa a maneira como eles integram esses 2 ritmos.
Sua letra faz menção à elementos tradicionais e crendices de Portugal e do Brasil, como pirilampos, sacis, fadas e lobisomens. À época a canção foi identificada como "elegia gay bem-humorada". Foi a canção que fez a alegria do público massivo das rádios.

"[...] Vira, vira, vira Vira, vira, vira homem, vira, vira Vira, vira, lobisomen [...]"

Após esse rock junino vêm a marcante O Patrão Nosso de Cada Dia. Composta por Jõao Ricardo, é entoada pelo lindo dedilhar de um violão, com uma flauta transversal de fundo, que juntamente com a voz andrôgina de Ney Matrogrosso, fazem você se arrepiar. Uma das minhas canções preferidas deste álbum, começa com 2 batidas de um sino de igreja. Depois entra o dedilhar emocionante do violão, e então Ney entra quebrando tudo com a sua voz que mais parece um instrumento musical. O refrão é cantado por várias vozes juntas. E nos intervalos das estrofes ainda surge uma flauta linda. A letra também é super marcante.

"[...] Eu já não sei se sei
De tudo ou quase tudo
Eu só sei de mim

De nós
De todo o mundo [...]"

Depois dessa emocionante canção surgem batidas rápidas de um violão seguidas de um baixo marcante, e se inicia Amor, uma parceria entre João Ricardo e seu pai, João Apolinário. Outra canção muito boa se ouvir.

"[...] Leve leve como pluma Muito leve leve pousa Na simples e suave coisa Suave coisa nenhuma [...]"

Logo depois vêm Primavera Nos Dentes, uma canção fortíssima. Originalmente um poema de João Aponilário, foi uma canção adorada pelos ditos "engajados" da época. Inicia-se com um piano, depois entra um baixo e por fim 2 guitarras misteriosas. Recebeu um tratamento de blues no seu início. E, já na metade final da música, surgem as surpreendentes vozes de Ney, João e Conrad, que entoam-na como se fosse um mantra. Um mantra blues rock, incrível essa mistura que eles fazem. A música entra em você, te toca, e quando entram as vozes, você se ve levado para um outro estado de consciência. A letra, uma poesia forte, contribui para isso. No final da estrofe surge um grito esganiçado de Ney Matogrosso, para então a música partir para seu final.

"
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera"


O álbum segue então com Assim Assado, uma canção musicalmente muito curiosa, que começa com batuques africanos seguida de um baixo de rock progressivo, logo surge uma flauta folclórica, e por fim uma guitarra distorcida com ritmo de rock progressivo. E então a música se transforma num rock progressivo, estilo Mutantes no álbum Tudo Foi Feito Pelo Sol, lembrando até Pink Floyd, e então ela termina voltando ao Brasil com os batuques africanos. Bem interessante.

Depois surge Mulher Barriguda, um gostoso rock'n'blues progressivo, que conta com uma gaita harmônica deliciosamente assoprada por João Ricardo, além de um piano acompanhando brilhantemente.

Agora vêm outra música mistíca e forte, El Rey, uma parceria entre João Ricardo e Gerson Conrad. Uma música curta, com apenas um minuto de duração, que é composta de um violão de 12 cordas sendo tocado dedilhadamente num ritmo muito belo, com uma flautinha oculta por trás da voz cântica de Ney, que entoa este lindo poema.

E então surge Prece Cósmica, poesia de Cassiano Ricardo, musicalisada por João Ricardo. Esta era a canção favorita dos hippies e místicos, que viam-na como um hino. Difícil definí-la, mas pode se dizer que ela é kind of a rock'n'blues, devido a mistura de ritmos do baixo, do piano, e da guitarrinha solo que vai por trás. Ao entrarem as vozes o ritmo muda, e surge uma bateria abrasileirada. Por fim ainda aparece um violino muito bem tocado, que dá ares místicos a canção.
Incrível música.

Seguindo a nossa mística última canção, você até pode achar que o álbum está acabando, que tudo já foi bom demais, e que não pode ter mais coisas boas.
Porém, como foi dito no início, este álbum é surpreendente, e para nos chocar, vem a incrível Rosa de Hiroshima.
Uma canção curta, de apenas 2 minutos, que são exatamtene suficientes para transmitir a mensagem da música. Poema escrito por Vinicius de Moraes, é musicalmente tão simples, mas totalmente marcante. Começa com o dedilhar de um violão, depois surge uma flauta transversal, que dá o ar certo à canção, e então Ney Matogrosso aparece para tocar nossos corações.
Musica que até hoje toca corações, na época virou um hino para os pacifístas.

"Pensem nas crianças mudas,
telepáticas
Pensem nas meninas cegas,
inexatas
Pensem nas mulheres, rotas
alteradas
Pensem nas feridas como rosas
cálidas
Mas! Oh! não se esqueçam da
rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima, a rosa
hereditária
A rosa radioativa, estúpida
inválida
A rosa com cirrose a anti-rosa
atômica
Sem cor, sem perfume, sem rosa
Sem nada"

Seguindo Rosa de Hiroshima vem Rondó do Capitão, poema de Manuel Bandeira. Canção também curta, de apenas um minuto, se tornou um clássico para o repertório infantil fazendo sucesso entre as crianças da época.

As Andorinhas é uma singela canção, também entoada como um mantra, que tem apenas uma frase, e dura apenas um minuto. Poema original de Cassiano Ricardo.

"Nos fios tensos da pauta de metal, as andorinhas gritam por falta de uma clave de sol."

E, para finalizar com classe este álbum mágico, nos surge e mágica canção denominada Fala.
Concebida a partir de uma parceria entre João Ricardo e sua amiga Lulhi, contém para mim um verso clássico.

"Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto"

Lindamente acompanhada por um piano e uma bateria cansada, Ney Matogrosso fala os lindos versos dessa canção de uma maneira apoteótica, justa, para finalizar este magnífico álbum. Nos 20 segundos finais da música fica um silêncio quase completo, com apenas um sintetizador fazendo barulhos espaciais. Realmente para fechar com chave de ouro!


Então é isso. Espero ter conseguido expôr um pouco deste magnífico álbum que faz parte da nossa cultura brasileira. Sugiro baixar e escutar, você também pode se surpreender!

Obrigada,

Sofia

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)




Salve. Vou falar hoje sobre o disco novo do Kanye West. Geralmente tenho muita antipatia por rappers, seja por pagarem de durões e criminosos, ou porque são pouquíssimos os rappers que tem álbuns clássicos na carreira. Mas eu gosto do Kanye. Bastante, apesar de ser um completo idiota. Ele surgiu como produtor, um prodígio que trouxe um tom épico para o hip-hop, trabalhando principalmente com seu mentor, Jay-Z, outro cara que eu curto.

Kanye teve dois álbuns incríveis abrindo sua carreira. The College Dropout e Late Registration são obras-primas, especialmente o segundo, um exercício do rapper não como O Poderoso Chefão ou Tony Montana, mas como Faraó. O ego do cara foi para a estratosfera com os elogios, e achou que era só lançar material novo para receber a mesma aclamação. Dois discos irregulares seguiram, Graduation e 808s & Heartbreak, sendo que nesse último West abdica do rap para cantar.

Como não tinha treinamento, usou e abusou do auto-tune para fazer um dos discos mais aventureiros da década passada em matéria de produção. Entretanto, as letras inspiradas pelo fim do relacionamento com Alexis Phifer e a morte de sua mãe, Donda West, mostravam que ainda era muito cedo para o cara gravar. Versos bobos, infantis, e o disco sofreu.

Dois anos se passaram, e Kanye West só se meteu em merdas no meio tempo. Nem preciso falar o que aconteceu porque a imprensa relatou à exaustão, mas isso tudo serviu para dar uma bela porrada no ego do cara, e fazê-lo se esconder no Havaí com os amigos e voltar com o melhor álbum da carreira.

Não sei se consigo manter meu padrão normal e falar faixa-a-faixa, porque estou escutando sem ordem, e vou me concentrar nos destaques. Dark Fantasy abre o disco com climão estilo Wu-Tang Clan, cortesia do produtor RZA. Gorgeous é o que o nome diz, com um sample de Gene Clark, uma guitarra visceral e West discorrendo sobre seus demômios internos. O refrão é lindo, cortesia de Kid Cudi:


Ain’t no question if I want it, I need it
I can feel it slowly drifting away from me
I’m on the edge, so why you playing? I’m saying
I will never ever let you live this down, down, down

Not for nothing I’ve forseen it, I dream it
I can feel it slowly dripping away from me
No more chances if you blow this, you bogus
I will never ever let you live this down, down, down


POWER é o grito de batalha desse disco. Batidas marciais, Kanye mais confiante que nunca e um sample de 21st Century Schizoid Man, do King Crimson. Uma herança positiva do terceiro disco de West, Graduation, foi como o rapper/produtor buscou em outros gêneros fora do soul para inspiração. Os outros rappers e produtores o seguiram, trazendo nomes como Kid Cudi para o mainstream e dando relevância ao gênero do rap indie, possuidor de uma outra sensibilidade lírica e sonora.

All of the Lights começa como um interlúdio e quando a faixa entra, você nota a lista quilométrica de convidados: Rihanna, Alicia Keys, Fergie, The-Dream, Ryan Leslie, Elton John, Charlie Wilson, Kid Cudi, John Legend, Tony Williams e Elly Jackson do La Roux. Artistas menores deixariam a porralouqice correr solta, mas Kanye mantém o foco e entrega um mastodonte em que ele é a estrela principal. Outra vitória dessa música é fazer a Rihanna soar suportável.

Monster é um rap com um batidão muito esperto, com Jay-Z, Rick Ross e Nicki Minaj dando palhinha. Ross é engolido pelos colegas, com Hova distribuindo versos paranóicos e Minaj mostrando seu estilo fluido e super original de rimar, nessa música influenciado por ragga. E ainda tem o Bon Iver fazendo backing vocals. O BON IVER!!!

Devil In a New Dress possui um sample belíssimo da versão de Smokey Robinson para Will You Still Love Me Tomorrow. Runaway, com seus nove minutos de duração, é o auge da indulgência do álbum. O curioso é que a canção também se mortra bastante auto-depreciativa. Essa característica prova ser o principal redentor de Kanye, já que ele reconhece que na maior parte do tempo é um completo babaca.

Chris Rock dá uma palhinha no final de Blame Game, quebrando a melancolia da faixa mais triste do álbum. Bon Iver aparece de novo em Lost In The Woods, retrabalhando seus vocais de The Woods, canção do EP Blood Bank, com auto-tune. Isso dá um efeito bem excêntrico às harmonias. Essa pode ser conceitualmente a faixa mais pessoal do disco, porque trata do isolamento de Kanye ao gravar o disco, longe de todas distrações. Batidas poderosas que caberiam em qualquer pista de dança marcam a canção.

Muita gente chamará esse álbum de auto-indulgente, mas para Kanye isso é um ponto a favor. Tudo que ele coloca no disco está lá não porque ele quer, mas porque precisa estar lá. My Beautiful Dark Twisted Fantasy traz de volta uma grandiosidade que não se via desde Michael Jackson em seu auge. Não me atrevo a dizer que West lançou algo tão bom quanto, mas certamente tão indulgente e focado quanto.

Kanye rima sobre a imprensa, aqueles que o criticam, chamam de palhaço, sobre a mãe, mulheres... principalmente sobre mulheres. Se esse álbum for indicação, o cara é viciadíssimo em sexo. Ou pelo menos é sincero o suficiente para confidenciar seus desejos com seu público. Seu twitter (aqui) mostra que o segundo caso é tão possível quanto o primeiro. A possibilidade do meio atraiu Kanye a se abrir com o mundo sem nenhum tipo de edição, mostrando um ser falho, com um ego ímpar no pop atual, mas ainda inseguro. E acima de tudo, extremamente talentoso.

O disco é uma obra-prima. Ouça.







sábado, 20 de novembro de 2010

Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix (2009)




Salve! O blog atrasa, mas não falha. Sentiram saudades? Estou de volta, trazendo uma homenagem à principal atração do Planeta Terra, festival de música que acontecerá hoje em São Paulo. Um exemplo de como uma banda pode construir uma obra pop universal sem aderir a padrões da indústria, e fazer sucesso. Vamos falar dos franceses Phoenix, e seu álbum mais recente, a obra-prima Wolfgang Amadeus Phoenix.

Esse é um disco tão meticuloso que não existem outtakes das sessões. Eles só escreveram as canções que entraram no produto final, trabalhando nelas até elas chegarem no estágio que eles consideram perfeição. E a beleza dessas canções é inatacável. Sério. Wolfgang Amadeus Phoenix é um disco simples, fácil de entender, imediato no impacto e fluido. Um dos melhores álbuns da década passada, com certeza, e o segundo melhor do ano passado, atrás do disco do xx (aqui).

O disco começa com a melhor canção, Lisztomania. O título deriva de um fenômeno observado durante as apresentações do pianista húngaro Franz Liszt (1811-1886), em que a plateia enlouquecia durante as demonstrações de virtuosismo e técnica de Liszt. Para quem acha que nunca ouviu nada do húngaro, pergunto o seguinte: lembra do episódio de Tom e Jerry que o Tom toca piano? Ele está tocando a peça mais famosa do cara, Hungarian Rhapsody no. 2.

Bem, de volta a canção. Baterias empolgantes, guitarras constantes e melodicas propulsionam uma das faixas mais empolgantes da década, cuja letra trata justamente da construção de uma canção, metaforicamente. Uma demonstração inteligente de metalinguagem, abrindo uma janela para ver o processo de composição de uma banda. Você não vê isso todo dia. A música em si teve uma homenagem muito bonita no Youtube, em que um clipe para ela foi criado usando cenas de filmes do imortal John Hughes.

O disco continua com uma trinca matadora: 1901, Fences e as duas partes de Love Like a Sunset. A primeira foi usada como amostra do álbum meses antes do lançamento, ao ser disponibilizada no site da banda. As guitarras melódicas, sintetizadores e uma batida sincopada ganharam o coração dos fãs, e 1901 é usada pela banda para fechar os shows da turnê. Em apresentação no Madison Square Garden, os também franceses do Daft Punk juntaram-se à banda para tocar essa canção.

Fences é uma balada beeeem estilo pop francês, no bom sentido. Tirando influência do Daft Punk circa Discovery (disco que falaremos a respeito no futuro, certamente), a canção relaxa o ritmo do disco, dando ao ouvinte a oportunidade de respirar e aproveitar a bela leveza da música. Daí entra a canção mais ambiciosa do álbum, a espetacular Love Like a Sunset, dividida em duas partes, uma tão linda quanto a outra.

A música foi composta inspirada em uma viagem da banda entre Paris e Versalhes, em que ouviam o compositor Steve Reich no carro enquanto passavam por túneis. A influência de Reich é bem presente nos ritmos constantes e a progressão da faixa, que dá a impressão de estar sempre indo para frente, e te levando junto. O ápice dessa jornada é a segunda parte, que parece flutuar de tão leve que é a melodia. Belíssima.

O disco continua com Lasso. Muitos caracterizam o Phoenix como sendo "que nem os Strokes, só que franceses". Eu acho um rótulo preguiçoso de pessoas que não veem como as duas bandas são diferentes. O powerpop do Strokes (sim, Strokes é powerpop, não rock. Essa é a minha opinião) se baseia na estrutura primordial do rock: guitarra, baixo e bateria. O Phoenix trabalha com bem mais que isso, com mais timbres, efeitos, ritmos... mas Lasso é realmente a música mais Strokes do disco. Não que seja ruim, porque não é.

A canção seguinte, Rome, é uma bela balada que conta uma história de amor e corações partidos na capital italiana. Virou single, seguindo a linha pop forte. Uma banda menor faria uma músia mais espalhafatosa, quando o Phoenix reduz tudo a uma batida, quase uma raspada, e uma linha de guitarra. Bem bonita.

A trinca final do disco tem seus altos e baixos. Mais altos que baixos. Countdown (Sick for the Big Sun) é bem empolgante com seus sintetizadores que lembram as músicas dos filmes de John Hughes. Girlfriend é uma canção que funciona mais ao vivo. O disco termina com Armistice, a canção mais guitarreira do disco, seguindo a linha de Lasso, só que menos Strokes. O cravo na middle-eight é genial, uma mudança inesperada que contribui para a faixa fechar o disco com chave de ouro.

Eu falei duas vezes de John Hughes nessa resenha. É impressionante como esse disco poderia servir de trilha para os filmes do diretor, mestre da mente adolescente. Seus personagens tornaram-se ideiais platônicos do que um adolescente devia ser, mas o que cativou as plateias foi a humanidade que eles demonstravam. O mesmo vale para o Phoenix. Eles construiram canções pop perfeitas, mas souberam manter o elemento humano que habilitou as pessoas simpatizarem com elas. Merecem todo sucesso que conseguiram com esse álbum, e ainda mais.








quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Paul McCartney & Wings – Band On The Run (1973)


  1. "Band On The Run" – 5:10
  2. "Jet" – 4:06
  3. "Bluebird" – 3:22
  4. "Mrs Vandebilt" – 4:38
  5. "Let Me Roll It" – 4:47
  6. "Mamunia" – 4:50
  7. "No Words" (Paul McCartney/Denny Lane) – 2:33
  8. "Picasso's Last Words (Drink To Me)" – 5:50
  9. "Nineteen Hundred And Eighty Five" – 5:27

Olá amigos leitores! Depois de um tempo de abstinência do blog, volto eu aqui hoje para falar um pouco sobre Band On The Run, álbum do queridíssimo Paul McCartney, lançado em 1973. Como tem show dele nesse final de semana, e todos os integrantes do blog, menos a queridíssima Kaila (que estará acompanhando o Planeta Terra), vão estar presentes, nada mais justo do que expormos um pouco sobre o essa obra de arte do Paul. Desse álbum ele tira 5 músicas que tocará no show; Band On The Run, Jet, Let Me Roll It, Nineteen Hundred and Eighty Five e Mrs Vandebilt. Incríveis!

Considerado por muitos o melhor disco solo de Paul McCartney, por outros um dos melhores discos de rock de todos os tempos, Band On The Run é um daqueles álbuns que todos deveriam no mínimo conhecer. Lançado em 1973, em 1974 ele foi o álbum mais vendido do mundo! Ele integra a lista dos 500 álbuns definitivos da Rolling Stone, além de fazer parte da lista dos 200 melhores álbuns britânicos da história, e dos 100 melhores álbuns de rock da história, ambas da revista Rolling Stone.
Este álbum foi gravado na Nigéria, e devido à banda ter tido uma interação perfeita, ele saiu naturalmente.

Perfeito para várias ocasiões, desde uma viajem à praia, até em um momento romântico, ou sensual, ou depressivo, ou casual, até psicodélico.. Ele se encaixa muito bem em várias ocasiões. E justamente essa é uma das características que são tão admiradas nas músicas dos Beatles, a universalidade.
Band On The Run
é assim, totalmente universal, abrangente, integrando varios ritmos num só, com uma perfeita sincronicidade. Isso fica muito claro logo na primeira música:

Com o nome, homonimo ao disco, Band On The Run é uma obra prima do meste Paul. Pode-se dizer que ela integra 4 músicas numa só, devido ao fato de conter 4 ritmos, musicalidades, e temas diferentes, em momentos diferentes da música. Ela começa com um ritmo calminho, com Paul cantando suavemente os versos da música. Ela fica nesse ritmo por 1 minuto e meio, e depois muda para um ritmo bem mais rápido, com uma levada mais rock'n'roll, e Paul canta mais gravemente. Depois, já no meio do segundo minuto da música, esse ritmo acaba, e começa uma ponte para o que virá a seguir.. que é simplismente.. uma explosão de alegria! Ai começa o ritmo e a letra de Band on The Run, que é praticamente uma histórinha de uma banda de estrada, que foge dos fãs, e fica viajando por aí... É lindo, e passa um sentimento tão bom.. Coisa que só o mago Paul consegue fazer. Ele transpõe sentimentos para a música de uma maneira incrível! E por transmitir coisas tão boas, que ele tem essa admiração universal. Não importa se você não entende a letra, ou se você nunca ouviu a música, é impossivel não se contagiar com a alegria que ela transmite.

Logo depois de Band On The Run vem Jet, outra música que ele também toca no show. Uma música com um ritmo mais rápido. Ele conta na música sobre como ele quer casar com uma moça, e o pai dela não quer que ela case por que a considera muito nova. Então ele fala, "Ele quer que eu a ame para sempre, depois.". Uma música bem animada também.

Depois de Jet vêm Bluebird. Imagine a energia dessa música..
Na época que o álbum Band On The Run foi gravado, 1973, Paul estava namorando Linda McCartney, que foi o grande amor da sua vida. Eles se conheceram no final de 1969, e desde que se conheceram, ficaram nada mais do que TODOS os dias de suas vidas juntos, tirando 16 dias em que Paul foi preso por porte de maconha. Em 1998, Linda morre de um cancêr, deixando para cá o nosso querido amigo Paul. E Bluebird expressa muito bem o espírito dessa paixão. Linda fazia parte da banda (tocava pianos e voz), e nesse música eles cantam juntos. É lindo! A música conta uma histórinha de um casal de passáros azuis que ficam voando por aí ...
Paul começa falando que ele é um pássaro azul, e que qualquer noite ele vai entrar no seu quarto (da Linda), para falar sobre o amor. Ele fala que vai beijá-la com um beijo mágico, e então ela vai se também se transformar em um pássaro azul. Depois ele conta como os dois saem viajando o mundo, cortando os céus, e até que enfim eles eram livres. E ele termina contando que agora eles vivem numa ilha desérta, no meio de lindas árvores, voando pela briza!


Um pedacinho da letra:

"Late at night when the wind is still
I’ll come flying through your door,
And you’ll know what love is for.
L’m a bluebird, I’m a bluebird

[...]

Touch your lips with a magic kiss
And you’ll be a bluebird too,
And you’ll know what love can do
You’re a bluebird, you’re a bluebird, [...]"


Depois dessa linda canção vem Mr. Vanderbilt, outra que ele também toca no show. Uma música super animada. Vários ja devem ter ouvido os versos, Oh Eh Oh...Oh Eh Oh, mas não se recordam que vêm dessa música.

Depois de Mr. Vanderbilt, vêm a exepcional, Let Me Roll It. Essa música pra mim tem uma tirada incrível.
"I cant tell you how I feel, My heart is like a wheel, Let me roll it, Let me roll it to you!"
Algo como: eu não posso te falar como me sinto, meu coração é como uma roda, deixe o rolar, deixe o rolar até você.. enfim.. O ritmo dessa música também é delicioso! Paul grita esganiçadamente, estilo Helter Skelter, e fica perfeito. Quem gosta de rock, não tem como escutar essa música e não adorá-la.
Depois de Let Me Roll It vêm Mamunia, No Words e Picasso's Last Words (Drink To Me), que, na minha opinião, são músicas menos relevantes que as outras.

E por último, para fechar brilhantemente esse lindo álbum, vem Nineteen Hundred and Eighty Five. Essa música é quando o disco atinge o seu auge!
Linda toca um piano lindo atrás, e Paul canta encantadoramente a letra da música, oras mais calmo, oras gritando. O ritmo dela é totalmente envolvente, uma música super dançante, que dá vontade de dançar, cantar, gritar, e sorrir, tudo ao mesmo tempo. Essa ele também toca no show.
Vale a pena escutar.

Bom, eu acho que é isso.
Muitos tem o falso pré conceito de diminuir a importância das músicas do Paul depois da sua saída dos Beatles. Mas pense, da mente que criou o Sgt Peppers, ou o Let It Be, porque não poderia sair mais uma coisa exepcional?

Band On The Run é uma obra de arte do nosso amigo Paul. E bom show a nós, que temos a sorte de estarmos vivos para presenciar esse momento histórico!

Por que um dia, os Beatles vão ser história..

Sofia